sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O mundo do lado de fora da janela

Dois homens, ambos gravemente doentes, estavam no mesmo quarto de hospital. 

Um deles, podia sentar-se na cama durante uma hora, todas as tardes, para que os fluidos circulassem nos seus pulmões. 

A sua cama estava junto da única janela do quarto. O outro homem tinha que ficar sempre deitado de costas.

Os homens conversavam horas a fio. Falavam das suas mulheres e famílias, das suas casas, dos seus empregos, onde tinham passado as férias… 

E todas as tardes, quando o homem da cama perto da janela se sentava, ele passava o tempo a descrever ao seu companheiro de quarto, todas as coisas que ele conseguia ver do lado de fora da janela. 

O homem da cama do lado começou a viver à espera desses períodos de uma hora, em que o seu mundo era alargado e animado por toda a atividade e cor do mundo do lado de fora da janela.

A janela dava para um parque com um lindo lago. Patos e cisnes chapinhavam na água enquanto as crianças brincavam com os seus barquinhos. Jovens namorados caminhavam de braços dados por entre as flores de todas as cores do arco-íris. Árvores velhas e enormes acariciavam a paisagem. 

Enquanto o homem descrevia tudo com extraordinário pormenor, o homem no outro lado do quarto fechava os olhos e imaginava a pitoresca cena.

Um dia, o homem perto da janela descreveu um desfile que passava. Embora o outro homem não conseguisse ouvir a banda, ele conseguia vê-la e ouvi-la na sua mente, enquanto o outro senhor a relatava através de palavras bastante descritivas.

Dias e semanas passaram. Uma manhã, a enfermeira chegou ao quarto trazendo água para os seus banhos, e encontrou o corpo sem vida do homem perto da janela, que tinha falecido calmamente enquanto dormia. Ela ficou muito triste e chamou os funcionários do hospital para que levassem o corpo. 

Logo que lhe pareceu apropriado, o outro homem perguntou se podia ser colocado na cama perto da janela. A enfermeira disse logo que sim e fez a troca. Depois de se certificar de que o homem estava bem instalado, a enfermeira deixou o quarto.

Lentamente, e cheio de dores, o homem ergueu-se, apoiado no cotovelo, para contemplar o mundo lá fora. 

Fez um grande esforço e lentamente olhou para o lado de fora da janela… que dava, afinal, para uma parede de tijolos!

O homem perguntou à enfermeira o que teria feito com que o seu falecido companheiro de quarto, lhe tivesse descrito coisas tão maravilhosas do lado de fora da janela. 

A enfermeira respondeu que o homem era cego e nem sequer conseguia ver a parede. “Talvez ele quisesse apenas dar-lhe coragem…”


Autor desconhecido. Texto da internet.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Na Sombra da Figueira

No teu aconchego, imponente Figueira*,
Perscruto a imensidão da vida,
Embora escondida em sua plenitude.
Mas... nessa atitude,
Contemplo belezas, cheiros e sabores,
E resgato matizes de cores
De uma realidade esquecida
Que insiste em ser revivida
E compartilhada... com o Vento*.

Em teu manto, majestosa Figueira*,
Me sinto pequeno e frágil...
Mas me apresento, mesmo assim,
Para explorar no mundo os seus confins,
Suas dores, amores, batalhas e fins
Buscando, talvez, um traçado
Que me leve, descansado,
A um sempre novo e régio começo.

Debaixo do teu regaço, estimada Figueira*,
Sinto aconchego, ternura...
Enfim, a coisa pura
Numa utopia persistente
Pois, creio, existe a semente
Que se espalha na terra nua
E confronta a realidade crua
De viver com sentido no presente.

Então, amiga Figueira*,
Te quero sempre ao meu lado,
Como minha companheira, parceira,
Sem preconceito ou barreira,
A dialogar com a vida
E descobrir a lida
No mundo tresloucado,
Com a certeza que na tua guarida
Posso me encontrar com a Vida*
Que tanto tenho buscado.

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* Figueira, Vento e Vida... desde a criação do mundo, a trindade estabelecida.

Vinicius Silva de Lima, 2011